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O Diabo veste Dolce&Gabbana

  • Foto do escritor: Ana Júlia Gomes
    Ana Júlia Gomes
  • 19 de fev.
  • 6 min de leitura

Atualizado: 3 de mar.

Por Ana Júlia Gomes


No desfile da coleção Outono/Inverno de 2026, a marca Dolce & Gabbana subiu às passarelas com o tema “The Portrait of a Man” (O Retrato de um Homem). Segundo a descrição feita pela própria marca, a coleção “celebra a identidade única de cada homem” e “coloca a individualidade em seu núcleo”. No entanto, para uma coleção que dá destaque para a individualidade e celebra a identidade, o que foi visto na passarela mostra o total oposto. O elenco de modelos escolhido para o desfile foi composto exclusivamente por modelos brancos, chamando atenção para a falta de diversidade e representatividade, além da incoerência com o tema proposto. No entanto, não é a primeira vez que a grife italiana se vê no centro de polêmicas controversas.


Através do Instagram, a modelo Bella Hadid — um dos grandes nomes da moda na atualidade —, também conhecida por seus posicionamentos políticos e apoio a causas humanitárias, comentou: "Em choque que as pessoas ainda apoiam essa marca. É vergonhoso. Modelos / estilistas / casting, tudo está errado. Anos de racismo, sexismo e xenofobia... Como ainda estamos chocados?"

Bella Hadid comenta sobre Dolce&Gabbana. Reprodução: redes sociais.
Bella Hadid comenta sobre Dolce&Gabbana. Reprodução: redes sociais.

Visitando o passado


No ano de 2007, uma campanha publicitária fez a marca ser acusada de incitar a violência contra a mulher. O anúncio mostrava uma mulher submetida ao chão por um homem sem camisa, enquanto ele segura seus pulsos e outros quatro homens observam. A imagem recebeu duras críticas e chegou a ser proibida na Espanha e na Itália.


O Instituto Espanhol da Mulher considerou que a campanha justificava e incitava a violência contra a mulher. Senadores italianos e a então ministra Barbara Pollastrini, pediram a retirada do anúncio por representar "uma autêntica incitação a um estupro coletivo".

Campanha publicitária acusada de incitar violência contra a mulher
Campanha publicitária acusada de incitar violência contra a mulher

Após as críticas das autoridades espanholas, a grife anunciou a retirada de sua campanha publicitária na Espanha para, segundo eles, proteger sua “liberdade criativa”. No comunicado publicado, a D&G ainda acusou o país de censura: “Recentemente a Espanha, com seu clima de censura, se mostrou disposta a interpretar negativamente todas as mensagens, mesmo sem motivo. Apesar de ir contra os interesses de Dolce e Gabbana, a decisão de cancelar os anúncios da grife no país se tornou inevitável.”


Depois do anúncio ser também proibido na Itália, a campanha publicitária foi retirada ao redor do mundo.


Em entrevista para a Vogue em 2017, Stefano Gabbana afirmou que assédio sexual não é violência. O ano de 2017 foi marcado por múltiplos escândalos de assédio sexual em Hollywood e no mundo da moda, na entrevista, ao ser questionado sobre o assunto, Gabbana respondeu: "Não é nada novo. Luchino Viconti (diretor de teatro) chamou Helmut Berger e Alain Delon (atores) para sua cama... mas é uma escolha, todo mundo sabe. Daí depois de 20 anos, você fala 'Ah! Ele tocou minha bunda!' Isso não é violência. Quem não faz sexo?"


Família tradicional


“Você nasce e tem um pai e uma mãe. Ou pelo menos deveria ser assim, e é por isso que não acredito em crianças criadas pela química, em bebês sintéticos, em barrigas de aluguel”, essa declaração de Domenico Dolce à revista italiana Panorama, em 2015, marca mais uma controvérsia da grife.


O discurso de Dolce gerou revolta de Elton John, que teve seus filhos por meio da fertilização in vitro. O cantor criticou duramente a marca e até mesmo subiu a hashtag #BoycottDolceGabbana em suas redes sociais. Ricky Martin e Ryan Murphy também aderiram ao boicote contra a Dolce & Gabbana.


Em sua defesa, Dolce comentou: “Sou siciliano e cresci em uma família tradicional, formada por uma mãe, um pai e crianças. Estou bem a par do fato de que existem outros tipos de família que são tão legítimos quanto a que eu tive. Mas na minha experiência pessoal, a família tem uma configuração diferente. Esse é o lugar no qual eu aprendi os valores do amor e da família.”


Após a polêmica, no ano seguinte a grife italiana lançou uma coleção com estampas que representavam famílias compostas por casais homoafetivos.

Dolce&Gabbana. Divulgação
Dolce&Gabbana. Divulgação

Já em 2017, Stefano Gabbana disse que não queria ser chamado de gay. Em entrevista para o jornal Corriere della Sera, ele afirmou que é apenas um homem e que o termo “gay” foi inventado por aqueles que precisam rotular outras pessoas. "Somos todos seres humanos antes de sermos gays, heterossexuais ou bissexuais", falou. Ele ainda disse não precisar da proteção de organizações que defendem os direitos da população LGBTQIAPN+.


Moda e Política


Ainda em 2017, Dolce & Gabbana foram criticados por vestir Melania Trump. Na época, marcas como Tom Ford e Marc Jacobs se recusaram a ceder roupas para a então futura primeira-dama dos Estados Unidos, esse não foi o caso da Dolce & Gabbana


Stefano Gabbana comemorou ao ver Melania Trump vestindo uma de suas criações e compartilhou uma foto dela, ao lado de Donald Trump, em seu Instagram. O estilista recebeu críticas em sua rede social e também na imprensa. Donald Trump sempre foi conhecido por suas falas preconceituosas e por não apoiar nenhuma minoria.


Muitos comentários lamentavam o fato de um “estilista gay” apoiar alguém como Trump, ao que Stefano respondeu pedindo para não ser chamado de gay. O italiano ainda afirmou que os comentários se tratavam de “críticas ignorantes”.

Foto: reprodução da internet
Foto: reprodução da internet

Após o desfile da D&G na Milan Fashion Week de 2017, Miley Cyrus compartilhou fotos do seu irmão, Braison Cyrus, que fez sua estreia como modelo no desfile da marca. A cantora parabenizou o irmão pelo desfile, mas ao final do texto declarou discordar dos posicionamentos políticos da Dolce & Gabbana.


Gabbana chamou Miley de ignorante e disse que, por conta do comentário dela, a Dolce & Gabbana nunca mais voltaria a trabalhar com o irmão dela. Mais tarde, ele compartilhou uma foto de Miley em sua rede social e escreveu: "Nós somos italianos e não nos importamos com política e muito menos com a americana. Nós fazemos vestidos e se você acha que está fazendo política com um post, é simplesmente ignorante. Nós não precisamos dos seus posts ou comentários, então da próxima vez nos ignore".


Em 2024 Miley Cyrus estrelou a campanha eyewear para a coleção de primavera da D&G.


Dolce & Gabbana X China, o erro que custou caro


Dolce&Gabbana. Divulgação
Dolce&Gabbana. Divulgação

Mais uma campanha publicitária que gerou polêmicas. Dessa vez a grife italiana recebeu acusações de racismo e xenofobia, além de um forte boicote na China.


Um grande desfile da Dolce & Gabbana aconteceria em Xangai em novembro de 2018, porém o material de divulgação do evento desencadeou reações negativas do público. A campanha publicitária foi postada no Weibo (rede social chinesa) e consistia em três vídeos de uma modelo chinesa tentando comer pizza, cannoli e espaguete (pratos típicos da culinária italiana) utilizando hashis. A marca recebeu comentários negativos de imediato e os vídeos foram retirados do ar em menos de 24h. Usuários do Weibo consideraram a propaganda ofensiva, racista, estereotipada e insensível, a hashtag #BoycottDolce ficou em alta. Além disso, supostas conversas de Stefano Gabbana foram vazadas, comprometendo ainda mais a grife, nas mensagens ele se referia a China como uma “máfia ignorante” e “um país de merda”. 


Celebridades chinesas que assistiriam ao desfile cancelaram a presença no evento, dentre elas a atriz e modelo Dilraba Dilmurat e o cantor e ator Wang Junkai, que até então eram embaixadores da Dolce & Gabbana. Ambos cancelaram seus contratos, cortando relações com a marca. Modelos também cancelaram suas participações no desfile.


“A premissa da cooperação se baseia na troca, em igualdade de condições e em respeito mútuo, assim como no respeito pela cultura e pela história de cada um. Não se deve atacar a pátria de uma pessoa, porque a pátria está acima de tudo”, declarou Wang Junkai na época.


Devido a polêmica, a grife italiana publicou um comunicado oficial:

"Nosso sonho era trazer para Xangai um evento em tributo à China que contasse nossa história e visão. Não era simplesmente um desfile de moda, mas algo que criamos especialmente com amor e paixão pela China e todas as pessoas ao redor do mundo que amam Dolce & Gabbana. O que aconteceu hoje foi lamentável não só para nós, mas também para todas as pessoas que trabalharam dia e noite para dar vida a este evento: do fundo do coração, gostaríamos de expressar nossa gratidão aos nossos amigos e convidados. Domenico Dolce e Stefano Gabbana". 


Também foi publicado um vídeo em que Domenico Dolce e Stefano Gabbana pedem desculpas pelo ocorrido. (Dolce&Gabbana apologizes.)


Sobre o vídeo da campanha e as mensagens vazadas — nas quais Stefano Gabbana supostamente teria ofendido a China — ambos alegaram que tanto a conta oficial da marca, quanto a conta pessoal de Stefano teriam sido hackeadas.


É possível separar o autor da obra?


Dado todo o histórico cercado de controvérsias, fica claro que a Dolce & Gabbana é uma extensão de seus criadores. As “campanhas publicitárias” da marca se alinham e refletem perfeitamente as declarações de cunho preconceituoso feitas por Dolce e Gabbana ao longo da carreira. A recente polêmica não surpreende. Alguns internautas sugeriram que o elenco de modelos seria a visão de “homem ideal” pessoal dos estilistas, entretanto essa ideia não torna a escolha dos italianos menos questionável. 


Apesar das constantes críticas sofridas desde 2007, os donos da grife não parecem ter mudado de pensamento ao longo dos anos. Isso nos leva à pergunta: qual será a próxima polêmica da Dolce & Gabbana?




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