A árdua tarefa de produzir cultura em Lagarto
- Valdson Gustavo

- 16 de fev.
- 4 min de leitura
Atualizado: 18 de fev.
Artistas revelam os dilemas para sobreviver da arte no município sergipano
“Produzir e criar continuamente é um ato de resistência e de muita ousadia. É necessário muita cara de pau”, o desabafo foi feito pelo ator, produtor e diretor teatral lagartense Benício Júnior, um dos muitos artistas que encarou a dura tarefa de fazer arte no município de Lagarto no Centro-Sul de Sergipe.
A cidade possui um vasto número de artistas e grupos culturais, além de ter uma grande história de manifestações e festejos folclóricos, porém ainda engatinha no suporte para quem faz arte no município. Mas, para ocupar esse lugar, é necessário percorrer um longo e árduo caminho. São várias as dificuldades de quem se propõe a produzir a arte, principalmente para quem planeja fazer algo de maneira independente ou com uma certa liberdade artística.

A luta da classe artística é constante, sobretudo, por visibilidade.
“A maior dificuldade é ser enxergado pelo poder público, muitos artistas bons ficam no anonimato por não terem a visibilidade necessária”, diz a cantora lagartense Gessie Someday.
Segundo Gessie, “um grande problema dos artistas da cidade é a falta de uma união que mobilize a classe”. Ainda diz que “eles não possuem um senso de comunidade que faça os mesmos se apoiarem, dificultando o crescimento da classe”.
Leis como a Lei Paulo Gustavo, que repassou 3,862 bilhões de reais para o setor cultural brasileiro ajudam, mas não chegam aos artistas em tempo hábil, muitos acabam desistindo antes de conseguir o dinheiro.
Outro meio de financiamento é a iniciativa privada, mas, este também é um obstáculo. O apoio de empresas e do comércio como patrocinadores é raro e até mesmo escasso. Para os artistas, falta consciência cultural e respeito à arte como atividade profissional.
“A figura do artista muitas vezes não é tratada como um trabalhador formal, mas sim como um brincante”, reflete o diretor teatral Benício Júnior.
A constância também é um problema, muitos artistas desistem por não conseguirem se manter ”Já vi vários amigos meus que eram artistas desistirem por falta de remuneração, o artista também precisa pagar contas”, conta Benício.
Educação como incentivo
Um estigma que chega também na educação. Para arte-educadores do município, o ensino da arte é menosprezado em relação aos outros. Além disso, o corpo docente das escolas não possui muitos professores com a formação necessária, por conta disso, professores de outras áreas precisam ocupar a cadeira.
Mas é na escola que está a maior fonte de resistência dos movimentos artísticos. Um dos meios no qual a arte mais vem crescendo em Lagarto é na escola, no qual os alunos vêm demonstrando ser um grande público consumidor. O maior exemplo é o FAI (Festival de Artes Integradas), que acontece anualmente no Colégio Abelardo Romero.
”O FAI é um espaço que preza pelo incentivo dos artistas, não se prendendo à ideia de pontuação, mas sim pelo amor à arte em si”, diz a professora Renata Carvalho. O evento conta sempre com vários artistas jovens, alguns da própria escola, além de servir como local de visibilidade e suporte para os artistas da cidade no geral.
Outra forma de suporte aos artistas da cidade é o conjunto artístico “Grupo Livre”, criado por por Benício Júnior. O grupo promove oficinas de teatro e produções artísticas, incentivando os artistas da cena lagartense.

“O intuito do Grupo Livre é, entre várias motivações, incentivar novos talentos a progredirem e evoluírem. Nas oficinas os artistas têm a possibilidade de se desenvolver, superar a timidez e aumentar seus conhecimentos artísticos.”, conta o idealizador Benício.
Essa nova geração artística movimenta o cenário artístico e cultural do município, servindo como combustível para os artistas lagartenses continuarem produzindo.
“É sempre bom saber que está sendo visto e ouvido, é bom ter pessoas que admiram o nosso trabalho”, diz a professora Renata Carvalho.
Poder público como incentivador
O Estado possui um grande papel na fomentação da arte de uma cidade, principalmente em relação ao estímulo e manutenção dos movimentos culturais.
Falta de investimentos, escassez de leis e eventos quase inexistentes provam o quanto a área cultural é algo que ainda carece de atenção maior. No momento atual, duas leis federais promovem o incentivo à cultura, as leis Aldir Blanc e Paulo Gustavo, que auxiliam na produção artística do município. Porém, segundo o secretário de cultura Nenê Prata, a verba destinada ao município pelas verbas geralmente atrasa.
Outra tentativa de aumentar a produção é a campanha de cadastramento de artistas feita pela Prefeitura. Os artistas cadastrados podem ser incluídos em futuros eventos organizados pelo governo, assim dando espaço para os artistas locais.A campanha é feita por meio da rádio e das redes sociais da Prefeitura.
“Uma grande dificuldade antes era a de achar os artistas, por isso criamos essa campanha”, conta o secretário de cultura de Lagarto Nenê Prata.
Atualmente a Secretaria de Cultura não possui um prédio próprio, utilizando a Casa da Cultura de Lagarto como local de trabalho, um dos motivos é a falta de verba e orçamento que permita a manutenção de um prédio próprio. Na Casa da Cultura acontecem algumas exposições de artistas locais, com a finalidade de aumentar a visibilidade desses artistas.

Segundo o secretário, a Prefeitura pretende reativar a antiga secretaria e reformar prédios públicos a fim de criar novos centros culturais Uma tentativa de proteger o patrimônio imensurável que nasce com as manifestações e grupos culturais do povo lagartense.
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